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Por que é tão difícil mudar a relação com a comida?

  • Foto do escritor: Geanne Paulino
    Geanne Paulino
  • há 5 horas
  • 4 min de leitura

Entenda como obesidade, emoções e comportamento alimentar se conectam e por que o tratamento vai muito além de força de vontade.



Durante muito tempo, a obesidade foi tratada apenas como consequência de escolhas individuais. Frases como “basta ter disciplina”, “é só fechar a boca” ou “falta força de vontade” ajudaram a construir uma visão simplista e, muitas vezes, cruel sobre uma condição extremamente complexa.


Hoje, a ciência mostra que a obesidade é uma doença crônica, multifatorial e progressiva, influenciada por fatores biológicos, emocionais, comportamentais, ambientais, sociais e metabólicos. A própria Organização Mundial da Saúde define obesidade como um acúmulo anormal ou excessivo de gordura corporal capaz de trazer prejuízos à saúde.


Isso significa que a relação que você tem com a comida não pode ser reduzida apenas à ideia de “comer demais”. Existem mecanismos muito mais profundos envolvidos no seu comportamento alimentar. E talvez seja justamente por isso que você sente que mudar a relação com a comida é tão difícil.


Além disso, o organismo humano possui mecanismos sofisticados de proteção contra perda de peso. Quando você emagrece, seu corpo pode aumentar sinais de fome e reduzir o gasto energético como tentativa de recuperar o peso perdido. Isso ajuda a explicar por que tantas pessoas emagrecem e voltam a ganhar peso depois.


A Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica reforça que a obesidade não deve ser entendida apenas como uma questão estética, mas como uma doença que exige acompanhamento adequado e tratamento individualizado.


Por que “comer menos” nem sempre resolve?

Embora alimentação e atividade física sejam fundamentais no tratamento, reduzir a obesidade a uma simples conta matemática ignora aspectos importantes do funcionamento humano.


A fome não é apenas fisiológica.

Ela também pode ser emocional.


O cérebro humano busca sobrevivência, conforto, recompensa e alívio. E a comida, especialmente alimentos ultraprocessados e ricos em açúcar, gordura e alta palatabilidade, ativa circuitos de prazer e recompensa importantes no cérebro.


Em momentos de estresse, ansiedade, tristeza, frustração e solidão, muitas pessoas recorrem à comida alívio rápido, mesmo que temporário.

É aí que entra o chamado comer emocional.


Quando a comida vira alívio emocional

Nem sempre você come porque seu corpo precisa de energia. Às vezes, come porque precisa de conforto. Outras vezes, porque está cansado, sobrecarregado, ansioso ou emocionalmente exausto. O problema é que esse alívio costuma ser temporário.

Depois do episódio alimentar, frequentemente aparecem: culpa; vergonha; sensação de fracasso; autocrítica e sensação de perda de controle. E isso pode alimentar um ciclo difícil de interromper.


A psicologia nos mostra que muitos comportamentos alimentares são influenciados por pensamentos automáticos e padrões aprendidos. Pensamentos como:

  • “eu mereço”;

  • “só hoje”;

  • “já estraguei tudo”;

  • “amanhã eu compenso”;

    podem manter ciclos de compulsão, culpa e recomeços constantes.


Comer emocional não é a mesma coisa que fome física

Aprender a diferenciar fome física e fome emocional pode ser um passo importante no tratamento. A fome física costuma: surgir gradualmente; vir acompanhada de sinais corporais reais; aceitar diferentes tipos de alimentos e diminuir após a alimentação.


Já a fome emocional costuma aparecer de forma repentina; vir acompanhada de urgência; buscar alimentos específicos e ligada a emoções e desconfortos internos.


Muitas pessoas relatam sensação de “não conseguir parar” ou “comer sem perceber”. Isso não significa falta de caráter. Significa que existem mecanismos emocionais. neurocomportamentais envolvidos naquele comportamento.


O ciclo emocional da alimentação

Na prática clínica, é comum observar um ciclo que se repete:

Situação difícil → emoção desconfortável → pensamento automático → urgência alimentar → alívio momentâneo → culpa → nova tentativa rígida de controle → novo episódio.

Por exemplo:


Você passa por um dia extremamente estressante no trabalho. Ao chegar em casa, sente exaustão emocional e pensa: “eu preciso de algo para me sentir melhor”. Então busca comida como forma rápida de conforto.


Por alguns minutos, há alívio.

Depois, surge a culpa.

Em seguida, aparecem pensamentos como:“não tenho controle”,“estraguei tudo”,“segunda-feira eu começo de novo”.


Esse padrão pode fortalecer a relação emocional com a comida ao longo do tempo.


O peso da autocrítica

Certamente se você vive com obesidade carrega anos de críticas, julgamentos e experiências dolorosas relacionadas ao seu corpo. Já tentou inúmeras dietas, restrições e métodos rápidos. E quanto maior a rigidez, maior pode ser o risco de episódios de perda de controle alimentar.


A Terapia Cognitivo-Comportamental mostra que pensamentos extremos, como “8 ou 80”, “tudo ou nada” ou “já estraguei tudo”, aumentam consideravelmente seu sofrimento e dificultam mudanças sustentáveis.


Acredite! Um deslize alimentar não destrói um processo inteiro. Mas a interpretação desse deslize pode gerar abandono.


Por isso, os principais consensos científicos defendem que o tratamento moderno da obesidade é individualizado e multidisciplinar. Isso envolve:


  • nutrição;

  • psicoterapia;

  • atividade física;

  • qualidade do sono;

  • manejo do estresse;

  • medicações, quando indicadas;

  • cirurgia bariátrica em casos específicos.


A SBCBM destaca que a cirurgia bariátrica não é um procedimento estético, mas uma ferramenta terapêutica importante para casos selecionados de obesidade grave, sempre associada ao acompanhamento multiprofissional.


Onde a psicoterapia entra nesse processo?

A psicoterapia não trabalha apenas “motivação”. Ela ajuda a compreender padrões emocionais, comportamentais e cognitivos relacionados à alimentação.


No tratamento psicológico, muitas pessoas começam a perceber:


  • quais emoções antecedem episódios alimentares;

  • quais gatilhos aumentam a vulnerabilidade;

  • quais pensamentos sabotam mudanças;

  • como lidar com culpa e recaídas;

  • como construir formas mais saudáveis de regulação emocional.


Isso não significa nunca mais sentir vontade de comer emocionalmente. Significa desenvolver mais consciência, repertório e capacidade de escolha diante dos impulsos.


Aprender a pausar antes de reagir

Uma das habilidades mais importantes no manejo do comer emocional é aprender a criar espaço entre emoção e comportamento.


Em vez de agir automaticamente, comece a se perguntar:

  • o que estou sentindo?

  • o que aconteceu antes?

  • estou com fome física ou emocional?

  • o que realmente preciso agora?


Esse processo ajuda a transformar respostas automáticas em respostas mais conscientes. Nem sempre será fácil. Nem sempre será perfeito. Mas a mudança comportamental sustentável geralmente acontece em pequenos movimentos repetidos e não em soluções radicais de curto prazo.


Conclusão

Mudar a sua relação com a comida pode ser difícil porque nem sempre é apenas comida. Muitas vezes ela também representa:

  • conforto;

  • recompensa;

  • alívio;

  • anestesia emocional;

  • pausa;

  • acolhimento.


Por isso, tratar obesidade e comportamento alimentar exige olhar para muito além do peso. Exige compreender corpo, emoções, pensamentos, ambiente e história de vida. E, principalmente, construir estratégias de cuidado que sejam sustentáveis, humanas e baseadas em ciência.


Se você percebe que sua relação com a comida está mais ligada ao sofrimento emocional do que à fome física, buscar ajuda profissional pode ser um passo importante no seu processo de cuidado.


 
 
 

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© 2024 - Por Geanne Paulino

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